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Prefácio de Richard Miskolci a “Carmen Miranda entre os desejos de duas nações”

Richard Miskolci

“O que é que a baiana tem?” perguntava Carmen Miranda com expressão faceira – sobrancelhas arqueadas ressaltando seus olhos verdes enquanto dava uma piscadela de cumplicidade com o público –  ao que logo respondia requebrando enquanto apresentava  uma lista quase infinita de coisas. Vestida em uma versão estilizada da roupa da baiana que criou com a ajuda do autor da canção, Dorival Caymmi, Carmen alçava a pobre mulher negra vendedora de quitutes a um ícone da cultura brasileira. Loira de tez clara, performava a exuberância e a sensualidade então atribuídas à mulher negra em um gesto – ao mesmo tempo – cúmplice do branqueamento esperado pelo público da elite e transgressor com relação à histórica recusa aos elementos de origem popular, sobretudo afro-brasileiros.

No início da era da cultura de massas moldada pela indústria fonográfica, o rádio, mas também pelo cinema e as revistas ilustradas, era um diferencial performar o que se cantava. No capitalismo midiático em ascensão passava a vigorar uma orientação visual corporificada em figuras femininas que encarnavam, literalmente, um mercado de consumo voltado para o desejo do homem branco. Neste contexto das primeiras décadas do século XX, uma mulher branca – mas imigrante e pobre – cresceu no centro do Rio de Janeiro convivendo entre uma pequena burguesia ascendente e as camadas populares aprendendo a transitar entre diferentes códigos culturais. É assim que surge Carmen Miranda, a jovem cantora de sambas que traria a criação de músicos negros para a sala de estar das elites brasileiras e que, anos mais tarde, encheria a tela dos cinemas mundo afora vestida de baiana para um público internacional.

Carmen foi uma figura espetacular em muitos sentidos, tendo se convertido também em objeto de diversas investigações acadêmicas, no Brasil e no exterior, sob diferentes perspectivas. Diante de tal riqueza artística e fortuna crítica, o que mais uma pesquisa sobre ela poderia nos revelar? Começa aí o desafio enfrentado pelo livro de Fernando de Figueiredo Balieiro, desafio superado com maestria ao nos apresentar uma análise sociológica original sobre a carreira da cantora e performer que encarnou midiaticamente a brasilidade dentro e fora de nossas fronteiras.

A originalidade da empreitada intelectual de Balieiro começa ao propor – por meio da análise da carreira de Miranda – uma leitura alternativa sobre a nação brasileira que problematiza a interpretação dominante nas ciências sociais de que nosso imaginário nacional teria se reconfigurado por volta da década de 1930 no diálogo entre intelectuais e Estado. Na visão de Balieiro, é a ascensão do mercado midiático de massas a partir dos anos vinte que reconfigurará a imagem dominante sobre o Brasil de um país que queria se imaginar branco e europeizado apagando as marcas indígenas e africanas de sua cultura para a de uma nação que celebraria em música e imagem sua singularidade.

Em um país com larga maioria de analfabetos, a música, o rádio – e logo também o cinema nacional – tratariam de incorporar elementos da cultura popular e afro-brasileira para uma audiência cujos gostos e predileções não podiam ser ignorados. É nesse contexto que o Brasil cantado pela então “rainha do rádio” tem o ritmo do samba e fala do morro, do malandro e da comida baiana em um deslocamento feito não sem resistências e críticas, como atestam os acalorados debates na imprensa da época. O popular é incorporado midiaticamente em uma versão branca negando visibilidade à negritude de fato, mas – ao mesmo tempo – derrotando as idealizações elitistas sobre a nação que haviam preponderado do Império à República Velha: do indigenismo europeizado do Império passando pelo ideal do branqueamento da República.

A nação brasileira, até a década de 1920, fora um projeto elitista que jamais levou em consideração os setores populares como atores políticos. O hiato entre a jovem República e o povo brasileiro era patente em episódios como a Guerra de Canudos (1895-1897), a Revolta da Vacina (1904) e a Revolta da Chibata (1910) nos quais a população foi tratada como inimiga por seu próprio Estado. A nação só existia como um projeto futuro, resultado de políticas como a de imigração e de branqueamento da população, portanto, desqualificando o elemento nacional indígena e africano. É apenas com a chegada da mídia, a partir da indústria fonográfica e do rádio, que este cenário começa a mudar. As mídias de massa demandavam atender ao gosto popular, daí introduzirem um diálogo entre interesses estatais de unidade nacional na Era Vargas e a cultura do povo. Nos termos de Balieiro: “A construção do nacional definitivamente deixava de ser monopólio de uma elite masculina que racionalizava e projetava sonhos de modernização e passava a ser experienciada, comercializada e desejada massivamente.” p.29

Na cultura de massas de uma era crescentemente midiática, o popular negro e mestiço ganhava uma batalha simbólica crucial ao tornar-se o cerne da cultura brasileira e se reconhecia na piscadela cúmplice de uma mulher vinda de baixo. Carmen Miranda negociava com sua branquitude a passagem e incorporação de elementos da vida popular para o consumo cultural de elites que – quase sem perceber – começavam a dar as costas à antes adorada Europa voltando sua admiração – quiçá não exatamente para os Estados Unidos – mas para as mídias que lá se desenvolveram e aqui permitiam a ascensão de um novo regime de representação sobre nós mesmos. Um regime de visibilidade criado não mais em tratados científicos, antes em formas midiáticas como a publicidade e os filmes.

Na esteira de análises como a de Rachel Soihet, Balieiro mostra que a valorização do popular e sua nacionalização dependeu da relação entre certos intelectuais da elite e artistas populares de forma que, na cultura midiática de massas, foi possível criar uma “comunidade imaginada” nacional em que as diferenças e desigualdades puderam ser simbolicamente suspensas. O popular só foi alçado ao nacional mediante uma série de negociações que renovaram o antigo valor da branquitude dentro de uma lógica de mercado de cultura de massas em que ela passou a ser sinônimo de acesso à modernidade por meio do consumo e estilo de vida.

Compreendida em termos culturais e políticos, a branquitude expressava uma afinidade com o mundo moderno em suas dimensões materiais e simbólicas que definiam seletivamente quem tinham acesso a determinados produtos, espaços e comportamentos que promoviam distinção social. A posse do rádio, a incorporação da moda hollywoodiana, a presença em bailes de gala ou cassinos eram alguns dos elementos que vinculavam sujeitos à modernidade. O samba cantado pelas estrelas do rádio expressava elegância à brasileira na época em que vitrolas e revistas ilustradas ocupavam as salas de estar das casas e, no espaço público, a elite se divertia indo ao cinema e frequentando o refinado mercado de entretenimento do Rio de Janeiro, então a capital do país.

Carmen Miranda encarnava essa branquitude tropical e, mesmo tendo nascida na Europa e sendo loira de olhos verdes, bronzeava-se na praia e se dizia bem brasileira cantando sambas que falavam da vida das classes populares negras e mestiças. Seu passo decisivo nesta incorporação performática do nacional foi vestir-se de baiana para números musicais no cinema e no teatro musical. Seu gesto não foi recebido sem polêmica, algumas recusas e até desqualificações, mas se entre nós a figura da baiana incomodava a elite que buscava distinção em relação ao seu próprio povo, nos Estados Unidos foi recebida como uma imagem latino-americana. Assim, Carmen era – ao mesmo tempo – baiana aqui e latino-americana lá, carregando signos de dois contextos culturais em uma só performance.

Carmen foi uma estrela nacional no mercado de entretenimento que se forjava na capital brasileira e, depois, uma estrela na Broadway novaiorquina e no cinema internacional de Hollywood. Negociou valores culturais abrangentes mediada por veículos de comunicação com história e lógicas próprias. É a partir de seus vínculos com uma esfera pública baseada na mídia de massas que difundiu globalmente suas imagens e performances como mulher que sintetizava – segundo a perspectiva de cada um –  o Brasil ou a América Latina. O star system de então se baseava na simetria entre a estrela e o público, o que se dava nos filmes hollywoodianos até pelo fato de que ela atuava como ela mesma, em especial quando as películas se iniciavam com suas performances sem que o espectador nem mesmo soubesse qual seria sua personagem no enredo. Ela era, antes de tudo, Carmen Miranda, um ícone cultural da diferença que parecia reiterar estereótipos, mas frequentemente os subvertia permitindo diferentes identificações em cada contexto nacional e mesmo em diferentes segmentos de público dentro de cada país.

Defendido originalmente como tese de doutorado no Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos), o presente livro destaca-se pela escrita direta e objetiva que convida a uma deliciosa leitura em que a trajetória de Carmen Miranda serve de meio para refletir sobre a historicidade do nacional, as formas que ele toma segundo cada época e perspectiva assim como se cristalizou na era da mídia de massas. Escapando às chaves do determinismo que reduziria a carreira de Miranda a reflexo de interesses políticos e econômicos quer da ilusão da agência individual sem restrições, Balieiro constrói uma obra em que prevalece o caráter polifônico da cultura com suas disputas e negociações. De forma que é impossível terminar a leitura sem se encantar com a carreira desta cantora e performer excepcional que se mistura com a passagem do teatro musical para o rádio, deste para o cinema e, por fim, termina na televisão. “Carmen Miranda entre os desejos de duas nações” é um livro sobre a cantora assim como um estudo sociológico sobre o papel da mídia de massa – em suas diversas formas –  na criação de um imaginário sobre o Brasil do qual ainda somos herdeiros.

Em termos teóricos, Balieiro se filia aos Estudos Culturais ao tomar a cultura como espaço político de disputa aproximando-se também dos Estudos Decoloniais por meio do conceito de colonialidade do poder, assim como da Teoria Queer a partir de uma interpretação criativa do conceito de performatividade de Judith Butler. Balieiro incorpora conceitos de forma seletiva e sofisticada adaptando-os a nosso contexto social e ao período histórico em foco. Da mesma forma, coloca em diálogo a fortuna crítica brasileira e a norte-americana sobre Carmen Miranda sem abrir mão do recurso às fontes primárias por meio de cuidadosa pesquisa documental, a qual desenvolveu nos mais importantes arquivos brasileiros e norte-americanos sobre a performer. Tudo isso contribui para a originalidade da obra, a qual interessará aos aficionados pela estrela assim como pesquisadores de áreas como sociologia, história, comunicação, música, antropologia e estudos de gênero, sexualidade e étnico-raciais.

Seu olhar afinado pelas questões interseccionais contribuiu para que reconhecesse na trajetória da figura da baiana do teatro ao cinema nacional assim como sua transmutação em latino-americana na Broadway e em Hollywood um ícone capaz de sintetizar problemáticas contemporâneas das diferenças permitindo discutir e analisar desigualdades nacionais, de gênero, sexualidade e étnico-raciais que persistem em nossos dias. Isso sem reiterar o discurso do ressentimento que transforma análises em denúncias na era das redes sociais contaminando até mesmo parte da produção acadêmica na área de diferenças. Em contraste com essa tendência, inspirado por uma analítica do poder de matiz butleriano, a pesquisa de Balieiro confere tessitura sociológica a reflexões que reconhecem agenciamentos, resistências e – sobretudo – deslocamentos em relação ao hegemônico.

“Carmen Miranda entre os desejos de duas nações” reconhece – como o público alternativo de mulheres e homossexuais que admiravam sua ídola – o convite transgressor na piscadela da cantora: não o flerte que enxergava o hegemônico público masculino e heterossexual, mas sim a cumplicidade astuciosa e brejeira entre a estrela e os subalternizados. É nessa identificação entre a estrela e seu fã menos óbvio que se abriam formas de resistência para o feminino, o não-branco e o não-heterossexual. Resistência que se traduz até hoje na incorporação da figura estilizada da baiana/latino-americana por transformistas, drag queens e outrxs que fazem de seu ícone um veículo para a paródia, a crítica e a subversão de limites de gênero, sexualidade e, pelo exagero e pelo lúdico, até mesmo da enfadonha normalidade.

 

 

Livro: Balieiro, Fernando F.  Carmen Miranda entre os desejos de duas nações São Paulo: Annablume,2018.

Já à venda nas livrarias e pela Internet.

Richard Miskolci é Professor Associado de Sociologia da UNIFESP, pesquisador do CNPq e coordenador do Quereres.